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domingo, 15 de agosto de 2010

O Monstro Marinho de Le Serrec

Confesso: essa fotografia me dá medo. Talvez isto tenha relação com o fato de que um de meus terrores de infância sempre tenham sido monstros marinhos, mas mesmo depois de adulto, e mesmo sabendo que a fotografia é “quase universalmente considerada uma fraude“, como notou mesmo o criptozoologista Loren Coleman, ela me causa apreensão.
Continue lendo para mais duas fotografias em close onde se podem ver seus olhos, bem como um punhado de explicações. Ao final, você poderá rir das imagens, se já não está rindo. Ou poderá continuar com medo.

A História

Como resumido no excelente texto do zoologista Darren Naish (em inglês), “The amazing Hook Island sea monster photos“, a história começa em março de 1965 quando o fotógrafo bretão Robert Le Serrec afirmou, na revista australian Everyone, que havia capturado fotos autênticas de uma serpente marinha.
De passagem pela Grande Barreira de Corais na Oceania com sua família e o amigo australliano Henk de Jong, decidiram passar três meses na Ilha Hook. Ao cruzar a Baía Stonehaven em 12 de dezembro de 1964, a mulher de Le Serrec viu o estranho objeto no fundo do lago.
Mostrou ser uma criatura gigantesca, de forma parecida com a de um girino. Tomaram várias fotografias, e Le Serrec e de Jong chegaram mesmo a criar coragem de descer do barco e filmar a coisa de perto. Teria mais de vinte metros do comprimento, mas não se movia, e pensaram que estava morta.
Foi então que assim que começaram a filmar a serpente abriu a boca e começou a se mover em sua direção: eles retornaram ao barco e a criatura fugiu.
Um tanto inacreditável, não? Quem em sã consciência se aproximaria de uma criatura de mais de vinte metros? Por que as fotografias mostram o ser na mesma posição, e o filme em si mesmo não mostrou absolutamente nada? Tudo muito conveniente e inverossímil. Já havia motivos para duvidar da história mesmo sem que outros detalhes enterrassem o caso de vez. Como enterraram.
Descobriu-se rapidamente que Le Serrec estava longe de ser uma testemunha confiável: seis anos antes já teria chamado investidores para um plano mirabolante envolvendo uma serpente marinha, e de acordo com Coleman, se o monstro não correu atrás dele, nada menos que a Interpol sim estava em seu encalço.
Um estelionatário que anos antes já anunciava que faria dinheiro com uma serpente marinha, encontrar uma de verdade por acaso é muito pouco plausível, e o caso é assim considerado uma fraude. Mas como foi feita?

Um saco

Darren Naish cita as explicações sugeridas por Ivan Sanderson de que o monstro seria apenas “um saco plástico usado pela marinha americana em experimentos para conter petróleo. Ou um balão do projeto Skyhook vazio que ficou coberto de algas. Ou um monte de retalhos amarrados”.
Naish favorece a ideia de que seria “um longo pedaço de plástico, moldado para a ocasião, mantido no fundo do lago com areia”, uma possibilidade também indicada por Bernard Heuvelmans já em 1968. E é uma boa sugestão. Naish nota como o contorno interrompido da criatura, especialmente como pode ser visto nos closes da cabeça, mostram que “em pelo menos quatro pontos parece que alguém jogou porções de areia sobre as bordas da criatura: exatamente o que você faria se tentasse manter um pedaço de plástico em forma de monstro no fundo da água”.
No entanto, esse contorno irregular, quebradiço da serpente me incomoda. Poderia ser como Naish sugere resultado de areia jogada sobre o plástico negro no fundo da lagoa, mas tentei o melhor que pude ver o fundo do lado, e presumo que várias das pedras que podem ser vistas marcariam o contorno da criatura se fosse de fato plástico mantido no fundo. Aparentemente, não o fazem. O contorno do “monstro” passa sobre as pedras, e talvez seja por isso que Sanderson sugeriu algas e roupas, porque o contorno da criatura parece realmente quebrado.
A maior parte disto pode ser simplesmente efeito da refração da água, distorcendo um contorno uniforme no fundo do lado. O vídeo abaixo é uma paródia japonesa da foto de Le Serrec — porque, afinal, é um clássico da criptozoologia. Apesar da piada, é uma espécie de reconstituição, e ilustra o efeito da água em movimento distorcendo o contorno de uma figura no fundo do lago:

BP: criando monstros marinhos

Mas há uma outra possibilidade: toda a faixa negra poderia ser apenas petróleo denso flutuando. Ao observar o contorno irregular, pode-se interpretá-lo como pedaços do óleo denso se afastando da faixa central. Aqui estão algumas imagens do vazamento de petróleo do navio-tanque sul-coreano Hebei Spirit em 2007:
Este vazamento é em uma escala muito maior — várias centenas de metros — e já parece um tanto diferente das fotos de Le Serrec. Mas deve ilustrar a ideia. Com os vazamentos da BP no Golfo do México — o vazamento acima foi causado pela colisão com um navio da Samsung — devemos estar mais familiarizados com o comportamento do petróleo sobre a água, ainda que o caso no Golfo do México envolva manchas diferentes, vindas do fundo do oceano.
Teria Le Serrec percebido que jogar um tanto de petróleo negro e denso sobre a água cuidadosamente poderia formar uma “seprente marinha”? De fato, isso seria mesmo possível? Os “olhos” poderiam ser formados abrindo buracos na camada de óleo? Com um lago calmo sem muitas ondas, a mancha poderia preservar seu formato por alguns minutos, suficientes para algumas fotografias?
São muitas perguntas, e de fato, como a própria história contada pelo fotógrafo diz que a criatura estava no fundo do lado, é provavel que as sugestões propostas envolvendo plásticos mantidos no fundo da água sejam mais acertadas. Apenas novas análises, com versões em melhor qualidade ou mesmo as fotografias originais, poderiam responder com melhor segurança como a fraude foi criada. E Naish menciona o rumor de que o próprio Le Serrec ainda estaria vivo e morando na Ásia — no ano de 2003.
Qualquer que seja a forma com que ele tenha criado seu monstro marinho, e mesmo sabendo que deve ser uma fraude, não gostaria de ver algo assim — fosse óleo ou apenas um grande saco.

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